domingo, 6 de dezembro de 2015

Viagem ao encontro do meu ser


Um belo dia decidi partir daqui. Contei meus trocados, deixei meus abraços e fui em busca do mundo sem lastro. Fui a procura de mim na esperança de encontrar o nada, quis ao mesmo tempo vislumbrar o tudo entre os novos e velhos ares do mundo. Quanto tempo quis ver a graça de aurora, tomar o ar límpido do vil brilho divinal, quase metafisico mas real, palpável, magistral. Então fui, acalmei meu medo de viver, o domei e lhe disse como uma voz serena, que nada mais importava então. Nada mais era tão importante e valia como a liberdade, pois por ela valia a pena viver cada instante eterno, e morrer no último segundo intenso. Livre! Pude gritar finalmente, com o gosto de novo amanhecer, acompanhado de uma nostalgia do futuro. O que virá não sei, só sei que fui. Deixei com os outros as obrigações, o diploma suado, as complicações cotidianas, e então trilhei o incerto, em busca de compreender o complexo que existe em mim. Como andarilho profissional transcendi em espírito e em verdade, estático nunca mais, pelo menos não mais, minha tática tracei com um trago do tabaco molhado da chuva, aquela com quem namorei por boas horas. Me deixei eternamente ir como se eu fosse átomo, queria mesmo cruzar a linha do compreensível, ir ao mundo de Alice e voltar pelas minas de Ouro Preto. Era extenso tudo aquilo que senti nos poucos minutos que cruzei as ruas, sem ter uma direção certa, nem contabilizar meu tempo, pois havia largado o relógio que aprisionava-me a vida carcerária da existência em sociedade. Ao som do choro de Tomas Hobbes eu rasquei o contrato social, e na verdade queria mesmo era voltar ao estado de natureza. Cruzei então de peito estufado as linhas que todos haviam me colocado despoticamente. Tornei-me por transfiguração a ovelha perdida, que não queria ser encontrada, mas gostaria mesmo de provar o mundo em um só gole, e destronar todo poder simbólico em apenas um sopro. Me fiz finalmente potência pura e dei vida ao meu eu, que não mais agonizada pela lastima de não ser, esse não era nada há tempos, pois foi até então o que quiseram e não o que deveria ser. Abracei então o devir e beijei o incerto como louco apaixonado, enamorado então pela contemplação da vida e pelo abstrato indizível. Meu espírito gritou saudações ao eros grego, brindei em pensamento com dionísio e bebi os goles do vinho da inverdade. Enveredei pelos caminhos desconhecidos do mundo, afim de encontrar o que não achei nos labirintos das convenções sociais. Pensei em fim por um largo instante, que pouco importava achar o sentido de tudo, pois talvez o tudo seja menos que nada, e na verdade não valha mesmo um terço das gotas de minha efêmera existência nesse plano. Tudo isso foi numa tarde de segunda-feira, antes de cruzar a avenida da utopia, imagine o que será narrado quando for cruzado a linha do real, ali na esquina do outro mundo possível? Certamente será preciso mais linhas. Por hora o que quero é outra gota de chuva, para alimentar minha alma sedenta pelo horizonte e sobretudo pelo que não sei, ainda indecifrado, criptografado pelos ditadores morais. Agora vou além, como Zaratustra em busca do não visto destino.

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